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John Hope Franklin (1905-2009) Historiador

In Escravatura, História, John Hope Franklin on Abril 14, 2009 at 9:34 pm
Imagem de bmia.wordpress.com.

Os seus prazeres maiores eram contemplativos e pacientes. Com um regador e tesoura, andava calmamente na sua estufa entre centenas de variedades de orquídeas. Ou, ao pé do rio, esperava durante horas que um peixe mordesse o isco. Estas eram, poderíamos dizer, divertimentos típicos de um historiador; muito próximos, em ritmo e carácter, da acumulação laboriosa e cuidada de minúsculas peças de factos.
E no entanto o que John Hope Franklin coleccionou foram pedaços de horror. Cinco dólares como custo de um ferro de marcar. Um contrato de venda, na Virginia em 1829, de um escravo masculino “de uma cor amarela” que “não tem como hábito fugir”. Ou o testemunho de 1860 de Edward Johnson, uma criança negra aprendiz:

Fui levado e preso com uma corda nos pulsos as minhas costas totalmente nuas e penduraram-me e depois lá Cada um [dos homens] pegou num chicote um de cada lado e bateram-me de tal maneira que quando me deixaram eu desmaiei e fiquei estendido no chão 2 horas.

A estes o Sr Franklin podia acrescentar da sua própria experiência. A viagem de comboio para Checotah, Oklahoma, quando ele tinha seis anos, que acabou quando a sua mãe se recusou a sair da carruagem só para brancos. O pequeno escritório de advocacia do seu pai em Tulsa, reduzido a escombros depois dos tumultos raciais de 1921. O dia em que lhe foi dito aos 12, por uma mulher branca que ele estava a ajudar a atravessar a estrada, que ele devia tirar as suas “mãos sujas” dela. E o entardecer quente em que ele foi comprar um gelado em Macon, Mississipi – um estudante de 19 anos, alto, da Universidade Fisk, intelectual com os seus óculos – e descobriu quando deixou a loja que tinha sido formado um semi-círculo por agricultores brancos para barrar a sua saída, sugerindo silenciosamente que ele não devia tentar passar pelo meio deles.
A vida académica não ofereceu nenhum abrigo. Teve resultados excelentes a partir do liceu, conseguindo finalmente um doutoramento em Harvard e tornando-se, em 1956, o primeiro chefe de um departamento de história constituído por apenas brancos, numa universidade predominantemente de brancos, Brooklin College. Mais tarde, a Universidade de Chicago contratou-o. Mas em Montgomery, Louisiana, o arquivador chamou-lhe “Harvard nigger” na cara. Nos arquivos do estado, em Raleigh, North Carolina, estava restringido a uma sala separada e tinha liberdade para andar pela biblioteca porque os assistentes brancos não o serviam. Na Duke em 1943, universidade onde voltou 40 anos mais tarde como professor não podia usar a cafeteria da biblioteca ou as casas de banho.
Os brancos, notou ele, não tinham escrúpulos em “desvalorizar uma raça inteira”. Os negros eram excluídos quer das suas histórias quer da sua compreensão de como a América tinha sido construída. A intenção do Sr. Franklin foi voltar a tecer a experiência negra na história nacional. Ao contrário de muitos depois dele, ele não via a “história negra” como uma disciplina independente, e nunca ensinou um curso formal sobre ela. O que ele estava a fazer era rever a história da América como um todo. Os seus livros, principalmente “From Slavery to Freedom”(1947), ofereceram aos Americanos a sua primeira visão completa de si próprios.

O vinho de Thomas Jefferson
A militância não era da sua natureza. Era um historiador demasiado escrupuloso para isso, e um
homem demasiado cortês. Questionado se odiava o Sul, diria, pelo contrário, que o amava. A sua dívida profissional mais profunda era com um homem branco, Ted Currier, que o tinha incentivado a estudar história e lhe tinha dado $500 para ir para Harvard. Mas a par com a dignidade e o sorriso fácil, um sentimento de raiva ardia. Tinha vontade de dizer aos turistas em Washington que o Capitólio tinha sido construído por escravos, e que Pennsylvania Avenue tinha tido um mercado de escravos, “mesmo ao lado de onde fica o Smithsonian”. Lucros tornados possíveis pela escravização de negros não tinham só permitido a Thomas Jefferson disfrutar de bons vinhos Franceses: tinha também sido a base dos bancos Americanos, o seu dinamismo económico e o seu domínio mundial. A exploração dos negros era algo que ele admitia “nunca ter ultrapassado”.
Nem a América tinha ultrapassado, apesar da manifestação de Selma, na qual o Sr. Franklin lidrou um grupo de historiadores, e Brown contra Board of Education, onde emprestou os seus conhecimentos para ajudar a provar que os Framers não tinham desejado impor a segregação nas escolas públicas. A “linha da cor”, como ele lhe chamava, permanecia “o problema social mais trágico e persistente” que o país enfrentava. Os seus próprios primeiros – presidente da American Historical Association e da Southern Historical Association, sócio do Cosmos Club de Washington – não abriu necessariamente a porta a outros. Na noite antes de receber a Presidential Medal of Freedom em 1995, uma mulher no Cosmos Club pediu-lhe para lhe ir buscar o casaco. Estava contentíssimo com a eleição de Barack Obama, mas não podia esquecer os negros pobres e imóveis revelados pelo furacão Katrina.
Tinha vontade de mudar as coisas, mas questionava como. Tinha dúvidas sobre indemnizações financeiras; as desculpas pareciam triviais. Só tempo, em quantidades históricas, poderia eventualmente fazer a diferença. Durante alguns meses foi Chairman da Initiative on Race (Iniciativa sobre a Raça) de Bill Clinton, um esforço desorganizado que terminou por recomendar “cooperação comunitária”. Cartas hostis choveram, maioritariamente de pessoas que não achavam que valia a pena falar sobre o assunto. Mr Franklin levou-as no seu passo. Lá ia trabalhar no próximo livro, ou retirar-se para a sua estufa, ferramentas na mão; e praticar paciência.

Artigo original:
http://www.economist.com/obituary/displaystory.cfm?story_id=13403067

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